A volatilidade persiste como um dos maiores desafios do mercado global de cacau em 2026, mesmo com a projeção de superávit para a safra 25/26. Problemas recentes de comercialização na Costa do Marfim e em Gana, riscos climáticos associados ao possível El Niño e movimentos técnicos nas bolsas continuam exercendo forte influência sobre o comportamento dos preços, segundo análises do relatório Outlook 2026 – Mercado de Cacau da Hedgepoint Global Markets.
“É um mercado que, apesar do superávit, ainda responde de maneira muito rápida a qualquer alteração nos fundamentos”, avalia Ana Carolina Ferreira França, analista de Inteligência de Mercado da Hedgepoint.
Demanda ainda sob pressão
Os indicadores de consumo seguem enfraquecidos nos principais mercados processadores. Na União Europeia, as importações de amêndoas caíram 12,1% nos três primeiros meses da safra 25/26, enquanto a moagem recuou 8,9% no quarto trimestre de 2025. Esse ambiente reflete preços elevados e restrições de oferta.
“A demanda ainda enfrenta um cenário desafiador, especialmente na Europa, onde os custos seguem pressionando a atividade industrial”, explica França.
Nos Estados Unidos, a dinâmica é mais resiliente: as importações líquidas voltaram a níveis próximos da média histórica, impulsionadas por maiores compras do Equador, que tem se beneficiado de diferenciais mais competitivos em relação às origens africanas. Ainda assim, a demanda global deve seguir pressionada, já que grande parte da indústria adquiriu cacau a preços historicamente altos, o que mantém custos elevados e limita a recuperação do consumo.
Recuperação parcial da oferta nas principais origens
As condições climáticas vêm sendo monitoradas de perto. Na Costa do Marfim, a precipitação acumulada está próxima da média, e a produção estimada é de cerca de 1,78 milhão de toneladas, embora semanas mais secas possam afetar a safra intermediária. Em Gana, o excesso de chuvas levanta preocupações sobre doenças, com produção estimada em 650 mil toneladas. O Equador mantém ritmo de crescimento, devendo alcançar 615 mil toneladas, mesmo com precipitação abaixo da média histórica.
“As origens vêm mostrando algum alívio na produção, mas ainda em um ambiente muito mais frágil do que o mercado gostaria”, afirma a analista.
Balanço global ainda sensível
A Hedgepoint estima um superávit global de aproximadamente 365 mil toneladas na safra 25/26, resultado da combinação entre recuperação parcial da oferta (+4,2%) e retração da demanda (-3%). Embora o saldo seja positivo, o mercado permanece vulnerável a qualquer alteração nos fundamentos. “O superávit existe, mas não representa folga. A estrutura do mercado continua delicada e suscetível a revisões rápidas”, pontua França.
Problemas de comercialização na África Ocidental
O preço doméstico pago ao produtor foi um ponto crítico nas recentes distorções do mercado. Com as cotações internacionais mais baixas, os preços internos estabelecidos pela Costa do Marfim e por Gana ficaram acima do mercado, afetando a comercialização e reduzindo o ritmo das exportações.
A Hedgepoint havia antecipado a necessidade de um ajuste, confirmado recentemente: a Costa do Marfim anunciou um corte de 57% no preço ao produtor, para 1.200 francos CFA/kg. O país também antecipou o início da safra intermediária para março, buscando normalizar os fluxos e liberar estoques remanescentes. “Essas mudanças devem melhorar os fluxos no curto prazo, mas também podem alterar o calendário e as expectativas para a safra 26/27”, analisa França.
El Niño pode alterar oferta da safra 2026/27
Outro ponto de atenção é o aumento da probabilidade de um evento de El Niño no segundo semestre de 2026. O fenômeno tende a provocar condições mais quentes e secas na África Ocidental e chuvas mais intensas no Equador, afetando o desenvolvimento da safra principal e da safra intermediária do ciclo 26/27.
“Se o El Niño se confirmar, o risco climático se torna o fator mais relevante para acompanhar nos próximos meses”, alerta a analista.
Mercado técnico mantém viés baixista
Apesar da valorização semanal de 11,8% em Nova York e 12,6% em Londres, o mercado mantém viés baixista. O RSI segue próximo de território de sobrevenda, abrindo espaço para correções técnicas, como realização de lucros e cobertura de posições vendidas por fundos. A recente escalada do conflito no Oriente Médio também adicionou volatilidade ao cenário macro e pode estar influenciando o comportamento das cotações.