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Greening em alerta máximo: a batalha técnica que decide o futuro dos pomares

Greening atinge 47% no cinturão citrícola, mas Fundecitrus aponta desaceleração e novas frentes de combate.
Foto: Fundecitrus
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O Fundecitrus registrou um salto de 7% na incidência do greening de 2024 para 2025, chegando a 47% no cinturão citrícola. Para o engenheiro-agrônomo do Fundecitrus, Arthur Tomaseto, a manutenção de plantas doentes no campo foi o grande acelerador desse aumento.

Como 2024 teve preços comerciais muito favoráveis, muitos citricultores decidiram manter plantas produtivas, apesar de infectadas, e isso alimentou o ciclo de transmissão.

O clima também entrou no jogo. Em 2023 e início de 2024 houve uma queda de 40% na população de psilídeos, reflexo da combinação de ondas de calor e melhorias de manejo. Mas, no segundo semestre, com o clima mais ameno, o ambiente ficou perfeito para a multiplicação bacteriana e para novas transmissões, mesmo com o vetor ainda em declínio.

A ressalva alentadora: embora a incidência siga crescendo, a velocidade desse crescimento caiu pelo segundo ano consecutivo. Em 2022/23, o salto foi de 56%; em 2023/24, caiu para 16,5%; e agora, para 7%. Para Tomaseto, isso mostra que o setor está aprendendo a manejar a doença, embora ainda em terreno extremamente desafiador.

Onde o greening mais avança e por quê

O cinturão citrícola engloba São Paulo e parte de Minas Gerais, e a média regional esconde uma realidade desigual. A parte central do cinturão apresenta incidências muito superiores à média e reúne cinco áreas críticas: Limeira, Porto Ferreira, Duartina, Avaré e Brotas.

Essa região combina três fatores explosivos: clima altamente favorável aos citros, à bactéria e ao psilídeo; alta densidade de citricultores com diferentes níveis de manejo; e proximidade entre pomares.

Como o psilídeo pode voar de 2,5 a 3 km, e o raio de segurança recomendado é de 5 km, o manejo regionalizado deixa de ser opcional: torna-se vital. Limeira é o epicentro desse cenário, com quase 80% de incidência.

Fotos: Fundecitrus

Sem união regional, nenhum pomar vence o greening

O tripé clássico (mudas sadias, erradicação de plantas sintomáticas e controle agressivo do psilídeo) é obrigatório, mas insuficiente se aplicado apenas dentro da porteira. O raio de segurança de 5 km exige cooperação entre vizinhos, associações e municípios.

Desde 2018, o “controle externo” já substituiu quase 6 milhões de plantas hospedeiras em áreas urbanas, chácaras e quintais, reduzindo fontes que sozinhas conseguem sabotar o trabalho de dezenas de citricultores.

A lógica é simples e dura: um único psilídeo infectado pode comprometer um pomar inteiro. E mesmo quando a planta já está doente, controlar o inseto continua vital, pois múltiplas reinfecções aceleram brutalmente o avanço da bactéria, derrubando a produtividade anos antes do previsto.

Por isso, mesmo quem está em região de alta incidência precisa continuar reduzindo a pressão de vetor; já quem está em áreas de baixa incidência deve erradicar rapidamente cada planta doente para manter a doença fora do radar.

No fim das contas, o greening não abre espaço para meias-medidas. A disciplina técnica individual sustenta o pomar; a cooperação regional salva a citricultura. E enquanto variedades resistentes e laranjeiras “repelentes” avançam nos testes, a estratégia mais poderosa continua sendo a mesma: rigor constante, ação coletiva e zero tolerância ao vetor. Porque, como resume Tomaseto, “para a incidência ser zero, o controle precisa ser dez”.

O manejo integrado e por que a cura individual não funciona

Para Tomaseto, não existe solução isolada: o greening só recua com manejo integrado, rigor absoluto e ação coletiva. O tripé básico é claro: uso de mudas sadias, erradicação de plantas sintomáticas e controle do psilídeo.

Arthur Tomaseto, agrônomo da Fundecitrus

Desde 2018, o Fundecitrus conduz o chamado “controle externo”, que já substituiu quase 6 milhões de plantas hospedeiras em quintais, chácaras e áreas não comerciais dentro dos raios de 5 km dos pomares.

A meta é reduzir fontes de inóculo fora da propriedade, algo tão estratégico quanto o manejo interno.

Outras ferramentas vêm ganhando espaço, como o caulim processado, que forma uma película branca sobre a planta e dificulta o reconhecimento visual dos citros pelo psilídeo, reduzindo pouso e transmissão.

O papel dos biológicos — útil, mas insuficiente sozinho

Biológicos e bioinsumos têm grande valor no manejo de pragas e doenças, mas o greening exige um nível de rigor quase absoluto.

Um único psilídeo infectado é suficiente para comprometer um pomar inteiro, e por isso, segundo Tomaseto, o controle biológico isolado não é rápido nem eficiente o suficiente.

A recomendação é utilizá-los como aliados em misturas, fortalecendo estratégias de resistência e reduzindo a pressão sobre inseticidas. Porém, jamais como única base do manejo.

Novas fronteiras: laranjeiras repelentes, variedades resistentes e tecnologias de detecção

O futuro do manejo começa a tomar forma, ainda que a passos lentos, como exige a biotecnologia.

O Fundecitrus já identificou parentes da laranja, na Oceania, naturalmente resistentes ao greening. O desafio atual é mapear os genes responsáveis e transferir esses mecanismos para a laranjeira comercial.

Outra linha de pesquisa avançada envolve a descoberta de que a goiabeira produz uma substância repelente ao psilídeo, chamada cariofileno. Laranjeiras geneticamente modificadas para produzir esse composto já estão em teste e apresentam redução significativa no pouso do inseto e na incidência da doença, as “laranjeiras com cheiro de goiaba”.

A próxima etapa é ampliar áreas de teste e avaliar o desempenho em diferentes condições climáticas antes de imaginar uso comercial.

Sintomas de greening na lavoura de citrus

O impacto da reinfecção e a importância da erradicação

Outro ponto crítico destacado por Tomaseto é a reinfecção constante. Uma planta contaminada leva de seis a sete anos para ter sua copa totalmente dominada pela bactéria, reduzindo até 70% da produção. Mas, se for infectada diversas vezes, esse período despenca, acelerando prejuízos.

Por isso, mesmo em regiões já muito afetadas, controlar o psilídeo continua essencial, pois reduz o número de reinfecções e prolonga a vida útil produtiva do pomar. Nas áreas de baixa incidência, a erradicação rápida de plantas doentes é a chave para manter a doença sob controle.

Regiões e incidência: um panorama resumido

Região do cinturão citrícolaNível de incidênciaMotivos principais
Limeira~80%Clima ideal para citros e psilídeo, alta densidade de produtores e manejo irregular entre vizinhos
Porto FerreiraAltaCondições climáticas favoráveis + área central do cinturão
DuartinaAlta pressão regional de inóculo
AvaréCondição climática propícia e presença de múltiplos perfis de manejo
BrotasForte pressão do vetor e proximidade entre pomares
Média do cinturão47%Manutenção de plantas doentes e ambiente favorável à bactéria

A mensagem ao produtor: é difícil, mas possível

Tomaseto encerra com um recado direto: já sabemos manejar o greening melhor do que há alguns anos. Mas o sucesso exige rigor máximo, regularidade e consciência coletiva.

A escolha da área de plantio, o cumprimento rigoroso dos três pilares e a participação no manejo regional seguem sendo a base da sobrevivência da citricultura até que variedades resistentes cheguem, e elas já estão a caminho.

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