Uma pesquisa inédita desenvolvida no Acre comprova a viabilidade do cultivo de canéfora sem irrigação no Vale do Juruá, região amazônica com solo e clima desafiadores. A iniciativa da Embrapa Café, em parceria com instituições locais e nacionais, avaliou o desempenho de dez clones híbridos de café Coffea canephora (robusta) ao longo de quatro safras consecutivas.
A produtividade surpreendente — com média geral de 77 sacas por hectare e destaque para clones que superaram 100 sacas/ha — reforça o potencial da região para a produção de café de sequeiro, sem o uso de irrigação.
Cultivo de canéfora sem irrigação pode impulsionar o café na Amazônia
Segundo Antonio Fernando Guerra, chefe-geral da Embrapa Café, o uso de variedades clonais superiores tem revolucionado a cafeicultura na Amazônia nos últimos 15 anos. Rondônia é o principal exemplo dessa transformação, mas agora o Acre desponta como novo polo de produção sustentável com o cultivo de canéfora sem irrigação.
“Essa expansão está baseada em tecnologia, com retorno econômico e bem-estar social para as famílias”, destaca Guerra.
Resultados promissores no Vale do Juruá
O experimento foi implantado em 2017 na Fazenda Experimental da UFAC – Campus Floresta, com o plantio de dez clones desenvolvidos especialmente para a Amazônia. Entre 2019 e 2022, os pesquisadores realizaram quatro colheitas. O pesquisador Marcelo Curitiba Espindula ressalta que, mesmo sem irrigação, o desempenho foi excelente.
“Alguns clones alcançaram mais de 100 sacas por hectare. Entre os melhores estão: BRS 2336, BRS 3210, BRS 1216, BRS 3137 e BRS 3213”, explica.
Espindula também alerta que a escolha do clone deve considerar mais que a produtividade: porte da planta, resistência a pragas, ciclo de maturação e compatibilidade genética são fatores decisivos para o sucesso da lavoura.
Alternativa sustentável para áreas remotas
O cultivo de canéfora sem irrigação se mostra uma solução especialmente viável para agricultores de áreas afastadas, com acesso limitado à energia elétrica e alto custo de equipamentos. O estudo destaca que, nessas condições, o modelo de produção sequeiro pode reduzir custos e promover inclusão produtiva.
Entretanto, os pesquisadores recomendam que, sempre que possível, a irrigação seja considerada. Além de garantir maior estabilidade em cenários climáticos adversos, a irrigação permite melhor aproveitamento dos insumos, aumentando a produtividade e a eficiência das lavouras.
Diversidade genética é essencial
A pesquisa também reforça que não se deve restringir o cultivo a poucos clones. A diversidade genética nas lavouras é essencial para evitar problemas de polinização, garantir a estabilidade produtiva e reduzir riscos fitossanitários.
Com esse novo cenário, o Acre pode ampliar sua participação na cafeicultura nacional, promovendo produção sustentável, geração de renda e valorização de regiões tradicionalmente pouco exploradas pela cafeicultura.