Sistema integrado desenvolvido pela Embrapa Cerrados combina baruzeiro, café irrigado e culturas anuais e bianuais para diversificar renda, otimizar recursos e acelerar a produção de uma espécie nativa de alto valor.
O cultivo do baru, fruto nativo do Cerrado com alto valor nutricional e crescente demanda de mercado, começa a trilhar um novo caminho: sair do extrativismo e entrar em sistemas comerciais de produção. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Cerrados (DF) avaliam o potencial do consórcio entre baruzeiro, café irrigado e culturas anuais e bianuais de ciclo curto como alternativa para diversificação das propriedades rurais.
A proposta busca unir diferentes tempos de retorno econômico dentro da mesma área. Enquanto o café oferece produção no médio prazo e o baru representa uma fonte de renda de longo prazo, culturas como feijão, abacaxi e mandioca ocupam os espaços disponíveis nos primeiros anos, gerando receita enquanto as plantas perenes ainda estão em formação.
O modelo integra produtividade, sustentabilidade e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis, especialmente água e nutrientes.
Baru cultivado: do extrativismo para uma nova cadeia produtiva
Considerado um superalimento devido ao elevado teor de proteínas, fibras e antioxidantes presentes em sua castanha, o baru ainda depende principalmente da coleta em áreas naturais. Esse sistema limita a regularidade das safras e dificulta o atendimento à crescente demanda por frutos e derivados.
A criação de sistemas comerciais eficientes pode transformar essa realidade, permitindo maior previsibilidade de produção e estimulando uma nova cadeia econômica baseada em uma espécie nativa do Cerrado.
Ao mesmo tempo, a cafeicultura irrigada já possui forte presença no bioma, favorecida pelas condições de clima e altitude que permitem a produção de cafés de alta qualidade. A união dessas duas culturas cria uma oportunidade de integração entre uma espécie tradicional e outra com grande potencial de mercado.
Dois sistemas de cultivo avaliam interação entre baru e café
Os experimentos conduzidos pela Embrapa Cerrados ocupam uma área de aproximadamente 3.500 m² e foram implantados em 2022 pelo pesquisador Tadeu Graciolli, responsável pelo desenvolvimento do Sistema Filho, tecnologia voltada à integração entre fruticultura, lavouras e hortaliças.
Foram implantados dois modelos de cultivo:
Sistema de linha dupla (LD):
Uma linha de baru é plantada entre duas linhas de café, formando corredores agrícolas que permitem a implantação de culturas de ciclo curto.
Sistema de linha simples (LS):
O baru é plantado dentro da linha do café, criando um sistema mais adensado, voltado principalmente para avaliar a interação entre as duas espécies.
Nos experimentos são avaliados dez clones de baru e três variedades de café arábica, buscando identificar materiais com maior crescimento, adaptação e produtividade.
“Corredores de agricultura” geram renda enquanto o baru cresce
Um dos diferenciais do sistema de linha dupla é a criação dos chamados “corredores de agricultura”. Esses espaços permitem aproveitar a irrigação destinada ao café para implantar culturas anuais e bianuais enquanto os baruzeiros ainda não entraram em produção.
Segundo o pesquisador Tadeu Graciolli, o conceito é combinar diferentes ciclos produtivos dentro da mesma área.
“O sistema foi pensado para obtenção de baru no longo prazo, café no médio prazo e culturas anuais e bianuais no curto prazo”, explica.
Dessa forma, o produtor consegue gerar fluxo financeiro durante os anos iniciais, reduzindo o impacto do investimento realizado na implantação das culturas perenes.
Resultados mostram potencial produtivo do consórcio
Os primeiros resultados indicam desempenho positivo das culturas envolvidas no sistema integrado.
A primeira safra de café foi colhida em maio de 2024, com produtividade média próxima a 40 sacas por hectare, considerando as três variedades avaliadas.
O destaque, porém, ficou por conta do desenvolvimento antecipado do baruzeiro. Em condições naturais, a espécie costuma iniciar a produção entre sete e dez anos após o plantio. No experimento irrigado, nove plantas floresceram e começaram a produzir frutos pouco mais de quatro anos após o plantio.
Algumas plantas chegaram a florescer com apenas dois anos e dez meses.
Segundo Graciolli, esse avanço está relacionado ao manejo diferenciado, com irrigação, controle de plantas invasoras, podas e adubação das culturas associadas.
Baru aproveita recursos destinados ao café
No sistema avaliado, o baruzeiro não recebe irrigação exclusiva nem adubação própria. A estratégia é aproveitar os recursos já destinados ao café e às culturas de ciclo curto.
“A irrigação é dirigida para o café e as culturas de ciclo curto. O baru entra como um convidado do sistema, aproveitando a água que sobra dessas outras culturas”, explica o pesquisador.
O manejo do baru envolve principalmente a poda dos ramos inferiores para elevar a copa da planta. A intenção é permitir que a árvore explore o estrato superior e proporcione um sombreamento parcial, criando condições mais favoráveis ao cafeeiro.
Culturas de ciclo curto garantem retorno durante a implantação
Além do café e do baru, os pesquisadores avaliaram culturas capazes de gerar renda nos primeiros anos.
O feijão apresentou produtividade média entre 1,8 e 2,2 toneladas por hectare, mesmo com perdas causadas pelo consumo das plantas por veados-campeiros. Segundo a equipe, sem esse problema, a produtividade poderia superar 3 toneladas por hectare.
No cultivo de abacaxi, o clone Smooth Cayenne apresentou frutos entre 1,8 e 2,2 kg, enquanto a cultivar Pérola produziu frutos entre 1,3 e 1,8 kg, ambos com boa qualidade visual e características de sabor equilibradas.
Já a mandioca apresentou aumento progressivo de produtividade, com raízes variando de 4,5 kg para 7,5 kg por cova entre 10 e 16 meses após o plantio. O potencial estimado chegou a cerca de 7 toneladas por hectare dentro dos corredores agrícolas.
Sistema integrado pode ampliar sustentabilidade das propriedades
Além da diversificação econômica, o consórcio entre espécies contribui para o uso mais eficiente de recursos naturais.
A presença de diferentes culturas na mesma área favorece maior biodiversidade, pode reduzir a pressão de pragas e doenças e melhora o aproveitamento de água, nutrientes e espaço físico.
Para produtores familiares, o modelo representa uma possibilidade de geração contínua de renda. Para propriedades maiores, pode abrir novas estratégias de diversificação e agregação de valor.
Próximos passos: seleção de clones superiores de baru
A pesquisa continuará acompanhando o desenvolvimento das plantas e avaliando o desempenho das diferentes combinações entre baru e café.
Após a quarta safra do café, está prevista uma poda e rebaixamento das plantas para estimular novos ciclos produtivos. A expectativa é que mais baruzeiros atinjam a fase adulta e ampliem a produção de frutos.
Paralelamente, os clones de baru com melhor desempenho serão selecionados para produção de mudas por enxertia, com possibilidade futura de lançamento de materiais superiores para cultivo comercial.
A expectativa é que o sistema integrado se transforme em um modelo produtivo capaz de unir a tradição do café brasileiro à valorização de uma espécie nativa do Cerrado.