Fotos: LUCAS BERTAZZONI
O Summit de Nutrição Vegetal Inteligente, promovido pela Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Abisolo), reuniu pesquisadores e profissionais do agro nos dias 09 e 10 de junho, no Pecege, em Piracicaba (SP), para discutir como ciência, tecnologia e resultados de campo podem aumentar a eficiência nutricional em solos tropicais.
Na abertura, o presidente do Conselho Deliberativo da Abisolo, Roberto Levrero, destacou o papel da tecnologia em um cenário de múltiplas pressões sobre a agricultura. “A tecnologia deixou de ser facilitadora para se tornar infraestrutura vital para o desenvolvimento humano. O nosso setor é sinônimo de tecnologia aplicada ao agro tropical, com pesquisa, inovação e sustentabilidade no DNA das empresas associadas”, afirmou.
Fósforo, biológicos e eficiência em solos tropicais
A programação técnica começou com a pesquisadora da Embrapa, Christiane Abreu de Oliveira Paiva, que abordou o tema “Inoculantes para fósforo: solubilizadores de fosfato e promotores de crescimento vegetal”. Ela detalhou como microrganismos solubilizadores e mineralizadores de fósforo podem ampliar a disponibilidade do nutriente em solos altamente intemperizados.

“Em muitos casos, de 100 kg de fertilizante fosfatado aplicado, apenas cerca de 20% são efetivamente aproveitados pelas plantas. Os microrganismos solubilizadores atuam justamente nesse ponto, tornando esse fósforo mais disponível na região da raiz por meio de mecanismos biológicos”, explicou Christiane. Resultados de mais de 20 anos de pesquisa mostraram ganhos consistentes de produtividade em milho, soja, cana e feijão, quando os inoculantes são utilizados dentro de um manejo integrado de solo e fertilização.
Matriz orgânica e organominerais sob análise
Na sequência, o professor Carlos Alexandre Crusciol discutiu “Interferência da matriz orgânica na absorção de nutrientes”, com foco nos fertilizantes organominerais e no papel das substâncias húmicas. Ele ressaltou que a eficiência desses produtos depende diretamente da qualidade e da concentração da fração orgânica utilizada.
Na palestra, o professor apresentou resultados de uma série de estudos conduzidos em diferentes localidades, nos quais foi avaliada a equivalência e a possibilidade de redução de dose de fertilizantes organominerais em relação aos minerais em cana‑de‑açúcar. “Em vários experimentos, a dose correspondente a 70% da adubação mineral, na forma organomineral, apresentou desempenho agronômico semelhante à dose completa do fertilizante mineral, mas esses resultados se referem a ensaios de um ano”, destacou Crusciol. Ele chamou a atenção para a necessidade de estudos de longa duração para confirmar até que ponto essa redução de dose é sustentável, sem comprometer as reservas de nutrientes no solo.
Resíduos, compostagem e substâncias húmicas
O engenheiro agrônomo e professor Brener Magnabosco Marra tratou de “Benefícios dos fertilizantes orgânicos nas substâncias húmicas do solo”, conectando uso de resíduos, economia circular e bioinsumos. Ele defendeu que resíduos agroindustriais e urbanos tratados devem ser encarados como coprodutos estratégicos, e não como passivo ambiental.
“Precisamos olhar para o solo como um sistema vivo. A matéria orgânica funciona como um grande ‘resort all inclusive’ para os microrganismos, aumentando a atividade metabólica, a ciclagem de nutrientes e criando um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das plantas”, disse Brener. Ele reforçou que compostagens bem conduzidas, com alta Capacidade de Troca de Cátions (CTC) e carbono estável, somadas a extratos húmicos de qualidade, podem reduzir perdas de nutrientes, aumentar a resiliência a seca e calor e complementar o uso de adubos minerais.
Atualidades em adubação foliar
Diretamente da Universidade Politécnica de Madrid, a cientista Victoria Fernández apresentou a palestra “Atualidades na adubação foliar”, trazendo uma visão global sobre pulverizações foliares com fertilizantes e biofertilizantes, agora também em grandes culturas como soja, milho e cana.

“Nossa intenção é unir o conhecimento científico fundamental sobre a absorção de fertilizantes e biofertilizantes cenários reais de produção. As novas descobertas sobre o ponto de deliquescência das soluções mostram que temperatura e umidade mudam completamente a janela de absorção foliar. Isso precisa ser incorporado às recomendações de campo”, enfatizou. Victoria também destacou a importância de conhecer a superfície foliar – cutícula, ceras e estômatos – para ajustar formulações, adjuvantes e condições ideais de aplicação.
Fisiologia, adaptação e fertilizantes especiais
Encerrando o eixo técnico, o professor Átila Mógor, da Universidade Federal do Paraná, abordou “Adaptação das plantas à disponibilidade de nutrientes e o uso de fertilizantes especiais”. Ele mostrou como as plantas percebem e respondem às oscilações de nutrientes, ajustando a arquitetura radicular, a expressão de transportadores e o metabolismo interno.

“A nutrição vegetal não é um processo estático. A planta interpreta continuamente as condições do ambiente e ajusta seu metabolismo para manter a homeostase nutricional e sustentar o crescimento”, explicou Mógor. Segundo ele, biofertilizantes, organominerais e produtos de liberação controlada podem atuar nesse “ajuste fino” do metabolismo, desde que posicionados em sintonia com a fisiologia da planta e integrados a um manejo de solo bem estruturado.
Encerramento e próximos passos
Ao final do Summit, Marcelo Santos, conselheiro da Abisolo, avaliou que o evento cumpriu seu papel de aproximar pesquisa e campo em um momento desafiador para a fertilização no Brasil.
Mais informações sobre o Summit de Nutrição Vegetal Inteligente e sobre a atuação da Abisolo podem ser encontradas em: www.abisolo.com.br.