Silenciosos e praticamente invisíveis a olho nu, os nematoides estão entre os maiores desafios fitossanitários da agricultura brasileira. Esses vermes microscópicos vivem no solo e atacam diretamente o sistema radicular das plantas, comprometendo a absorção de água e nutrientes e reduzindo drasticamente o potencial produtivo das lavouras.
No Brasil, estima-se que os prejuízos causados por nematoides ultrapassem R$ 35 bilhões por ano, representando a perda de uma a cada dez safras. Devido ao tamanho microscópico, os nematoides ainda são subestimados em muitas lavouras, mas o problema preocupa produtores de diversas culturas, especialmente soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, café, plantas ornamentais e olerícolas, setores estratégicos do agronegócio nacional.
Gêneros espalhados pelas lavouras brasileiras
Entre os principais gêneros presentes no país, o nematoide-das-galhas, representado pelas espécies Meloidogyne incognita, Meloidogyne enterolobii e Meloidogyne javanica, é considerado um dos mais agressivos e frequentes.
Esses organismos provocam a formação de galhas nas raízes, estruturas que dificultam o desenvolvimento das plantas e limitam a absorção de nutrientes essenciais.
Outro destaque é o nematoide-das-lesões-radiculares (Pratylenchus brachyurus), bastante comum em solos arenosos e com crescimento constante nas áreas agrícolas brasileiras. Seu ataque provoca lesões escuras nas raízes, abrindo caminho para a entrada de fungos e bactérias que agravam ainda mais os danos às plantas.
Na cultura da soja, o nematoide-do-cisto (Heterodera glycines) é um dos principais vilões. Seus cistos conseguem sobreviver por anos no solo, dificultando o manejo e favorecendo novas infestações. Em áreas severamente atacadas, as perdas de produtividade podem ultrapassar 50%.
Já o nematoide-reniforme (Rotylenchulus reniformis) tem grande impacto em lavouras de algodão e soja. O parasita se alimenta parcialmente inserido na raiz, causando sintomas como murcha, amarelecimento e estiolamento das plantas.

Prejuízos além do bolso
Os prejuízos provocados pelos nematoides vão além da queda na produtividade. Ao provocar ferimentos nas raízes durante sua penetração e movimentação nos tecidos, essas lesões funcionam como portas de entrada para patógenos, enquanto as alterações fisiológicas causadas pelos nematoides podem enfraquecer os mecanismos de defesa da planta. Os ferimentos causados no sistema radicular facilitam a entrada de fungos de solo, como Fusarium e Rhizoctonia, aumentando a incidência de doenças secundárias.
Outro fator preocupante é a dificuldade de identificação inicial. Os sintomas normalmente aparecem em reboleiras, com plantas amareladas, raquíticas e murchas. Quando os sinais se tornam visíveis na parte aérea, o sistema radicular já está severamente comprometido.
Disseminação rápida e silenciosa
A disseminação também ocorre de forma rápida e silenciosa. Como a erradicação após a infestação é praticamente impossível, os nematoides se espalham facilmente pelo trânsito de máquinas agrícolas, implementos e até pela água da chuva, tornando o manejo preventivo uma das principais estratégias para reduzir os impactos no campo.
Como sempre destacou o Professor Ailton R. Monteiro, a principal regra para o manejo dos nematoides é “não plantar nematoides”. Medidas preventivas, como a limpeza de equipamentos e o uso de material propagativo saudável, principalmente mudas certificadas, são fundamentais para impedir o avanço da infestação e reduzir os prejuízos nas lavouras.
Como a erradicação dos nematoides é praticamente impossível após a infestação, o principal objetivo do manejo é manter suas populações abaixo do nível de dano econômico. Para isso, é fundamental adotar estratégias integradas, como a rotação de culturas, o uso de cultivares resistentes e outras práticas de manejo que reduzam a multiplicação desses patógenos e minimizem seus impactos na produtividade das lavouras.
Dentre as técnicas disponíveis, o tratamento de sementes com nematicidas sintéticos e biológicos tem apresentado resultados promissores na redução da infecção inicial por nematoides e na melhoria do desenvolvimento das plantas. Entre suas principais vantagens estão a proteção das raízes nos estágios iniciais da cultura, a praticidade de aplicação e a integração com outras estratégias de manejo.


Professora Dalila Sêni Buonicontro e o pesquisador Claudio Marcelo Oliveira, responsáveis pela pesquisa
Novo nematoide no campo
Nas bordas aparentemente comuns das folhas de corda-de-viola (Ipomoea cairica e I. syringifolia), um organismo até então desconhecido obrigou a ciência a reorganizar peças importantes da taxonomia de nematoides.
O novo gênero e espécie, Monteironema caresi, foi descrito por nematologistas brasileiros em um estudo publicado no Russian Journal of Nematology. O achado não apenas amplia o inventário de fitonematoides, como também redefine fronteiras dentro da família Anguinidae, grupo conhecido por parasitar folhas, caules, flores e sementes.
A descoberta começou no campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV), quando o professor Robert Weingart Barreto identificou plantas com sintomas discretos, mas intrigantes: manchas cloróticas e necróticas delimitadas pelas nervuras.
A investigação que revelou um novo gênero
As amostras seguiram para o laboratório da UFV, onde a equipe liderada pela professora Dalila Sêni Buonicontro iniciou uma análise detalhada. Em colaboração com o pesquisador Claudio Marcelo G. Oliveira, do Instituto Biológico, e outras instituições, o grupo combinou morfologia clássica e ferramentas moleculares para entender o organismo.
O resultado foi decisivo: não se tratava de uma espécie já conhecida, nem de um gênero existente. Segundo os autores, a combinação de características estruturais e filogenéticas “rompia” com qualquer enquadramento anterior dentro da família Anguinidae.
A conclusão foi direta e ousada: um novo gênero deveria ser criado.
Um nematoide que não faz galhas, mas escreve manchas
Ao contrário de muitos de seus parentes anguinídeos, conhecidos por deformar tecidos vegetais, Monteironema caresi atua de forma mais silenciosa e, talvez por isso, mais difícil de detectar. Ele não forma galhas. Ele desenha manchas.
Essas marcas foliares representam um padrão menos comum entre nematoides desse grupo e podem passar despercebidas em campo, confundidas com outras doenças foliares.
A descoberta desse tipo de sintoma abre uma nova frente de atenção para a fitopatologia tropical.
Anatomia de um recém-chegado à ciência
Os adultos de Monteironema caresi medem entre 0,4 e 0,9 milímetro e apresentam três formas distintas: fêmeas semi-obesas, fêmeas imaturas e machos delgados. O corpo é fusiforme, a cutícula é finamente estriada e o estilete é curto e robusto, adaptado à perfuração de tecidos vegetais.
Essas características, somadas a particularidades do sistema digestivo e reprodutivo, reforçam sua posição como uma linhagem independente.
Tabela comparativa de características morfológicas e ecológicas
| Característica | Monteironema caresi | Nematoides anguinídeos típicos |
| Tamanho | 0,4 a 0,9 mm | Variável, geralmente semelhante |
| Forma corporal | Fusiforme | Variável |
| Sintoma na planta | Manchas cloróticas e necróticas | Galhas, deformações ou enrolamentos |
| Estrutura alimentar | Estilete curto e robusto | Estilete variável |
| Tipo de dano foliar | Redução de tecido fotossintético | Crescimento anormal de tecidos |
| Hospedeiro registrado | Ipomoea spp. | Diversos vegetais |

Quando o nome carrega uma história da ciência
O nome Monteironema caresi não é apenas uma classificação taxonômica. Ele é também um tributo.
A denominação homenageia dois pilares da nematologia brasileira: o professor Ailton Rocha Monteiro e o professor Juvenil Enrique Cares.
A fusão dos sobrenomes dá origem ao epíteto da espécie, simbolizando continuidade científica e transmissão de conhecimento entre gerações.
Um avanço que amplia o mapa da biodiversidade invisível
Para os pesquisadores envolvidos, o impacto vai além da taxonomia. “Os resultados mostraram que o nematoide não se enquadrava em nenhum dos gêneros conhecidos da família Anguinidae”, destacam os autores no estudo, reforçando o caráter singular da descoberta.
Em outra leitura científica, a professora Buonicontro aponta que o achado reforça a importância da taxonomia integrativa. Ela também demonstra como a rica biodiversidade brasileira ainda guarda formas de vida desconhecidas, inclusive em áreas amplamente estudadas como Viçosa, MG.
Já o pesquisador Claudio Marcelo Oliveira observa o impacto aplicado da descoberta: o entendimento mais profundo das interações entre nematoides e plantas pode apoiar estratégias de manejo de espécies invasoras como a própria corda-de-viola.
Organismo pequeno, implicações grandes
A atuação de Monteironema caresi reduz a área fotossintética das folhas, comprometendo a produção de energia da planta hospedeira. Isso cria um efeito em cascata no desenvolvimento vegetal.
Embora inicialmente restrito a plantas daninhas do gênero Ipomoea, o potencial ecológico do nematoide ainda está sob investigação, incluindo possíveis interações com outras espécies vegetais.
Ciência, manejo e vigilância no campo
A Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), por meio de sua presidente Andressa Machado, destaca um ponto crítico: a disseminação de nematoides pode ocorrer de forma silenciosa via solo aderido a máquinas e implementos agrícolas.

Segundo a entidade, práticas de limpeza adequada são essenciais para reduzir a dispersão de patógenos entre áreas de cultivo.
Além disso, a SBN reforça a importância do monitoramento constante e do envio de amostras para diagnóstico especializado, especialmente diante da possibilidade de novos registros em outras regiões além de Viçosa.
Um mapa ainda em construção
O estudo de Monteironema caresi abre mais perguntas do que respostas. Ele amplia o conhecimento sobre nematoides foliares e reforça a ideia de que a biodiversidade brasileira ainda guarda capítulos microscópicos não lidos.
Mais do que um novo nome na taxonomia, trata-se de um lembrete científico: mesmo o que parece silencioso nas folhas pode estar reescrevendo a história da biologia.
