O trabalhador rural e calor extremo formam uma combinação cada vez mais preocupante para a agricultura brasileira. Em 2024, os trabalhadores do campo perderam, em média, 295 horas de trabalho devido ao estresse térmico, número 23% superior ao registrado em 1990. Os dados fazem parte de uma análise da Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU), que alerta para os impactos crescentes das altas temperaturas sobre a produção de alimentos e a segurança alimentar global.
O estudo avaliou 15 países produtores agrícolas e concluiu que o calor excessivo já afeta significativamente a capacidade de trabalho no campo. Somados, esses países registraram a perda de 216 bilhões de horas de trabalho em 2024. Em média, cada trabalhador rural perdeu cerca de 590 horas ao longo do ano, o equivalente a aproximadamente 49 dias de atividade.
Trabalhador rural e calor extremo preocupam o setor agrícola
Segundo os pesquisadores, a redução da capacidade laboral causada pelo calor extremo representa uma ameaça direta à produção agrícola mundial. Além de comprometer a saúde dos trabalhadores, o problema afeta a produtividade das lavouras, a estabilidade das cadeias de abastecimento e os preços dos alimentos.
Dados do Lancet Countdown mostram que o calor extremo provocou a perda de 640 bilhões de horas potenciais de trabalho em todo o mundo em 2024, considerado o ano mais quente já registrado. O volume representa um aumento de quase 98% em relação à média observada na década de 1990.
Para Gareth Redmond-King, chefe do Programa Internacional da ECIU, o risco de uma crise alimentar cresce à medida que as mudanças climáticas impactam não apenas as culturas agrícolas, mas também os trabalhadores responsáveis pela produção dos alimentos.
El Niño pode agravar os impactos do calor extremo
A preocupação aumenta diante da possibilidade de formação de um forte evento de El Niño nos próximos meses. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima em 80% a probabilidade de ocorrência do fenômeno, que tende a elevar ainda mais as temperaturas globais.
Especialistas alertam que a combinação entre El Niño e mudanças climáticas pode intensificar eventos extremos e tornar 2027 um dos anos mais quentes já registrados. No Brasil, efeitos semelhantes já foram observados recentemente, com secas severas na Amazônia e enchentes históricas na Região Sul.
Agricultura brasileira enfrenta desafios crescentes
As projeções indicam que o Brasil poderá registrar aumento médio de aproximadamente 2,2°C até 2050. Nesse cenário, culturas importantes para o agronegócio nacional, como café, arroz, trigo, mandioca e cacau, tendem a enfrentar maiores dificuldades produtivas.
O estudo destaca que os trabalhadores agrícolas são os mais afetados pelo estresse térmico. Eles responderam por 63,5% de todas as horas de trabalho perdidas devido ao calor no mundo e por 75,5% das perdas registradas nos países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Impactos econômicos e segurança alimentar
Os países analisados desempenham papel estratégico no abastecimento global de alimentos. Juntos, produzem commodities como café, arroz, soja, cacau, frutas, açúcar, óleos vegetais e pescado.
Com o avanço das temperaturas, cresce a preocupação com a redução da produtividade agrícola, a inflação dos alimentos e a vulnerabilidade das cadeias globais de abastecimento. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o estresse térmico poderá reduzir em 2,2% as horas trabalhadas globalmente até 2030, gerando perdas estimadas em US$ 2,4 trilhões para a economia mundial.
Adaptação climática será fundamental
Especialistas defendem que a adaptação da agricultura às mudanças climáticas exigirá investimentos em tecnologias resilientes, assistência técnica e ampliação do financiamento climático para pequenos produtores.
Além da redução das emissões de gases de efeito estufa, os pesquisadores destacam a importância de apoiar agricultores na adoção de práticas sustentáveis capazes de minimizar os impactos do calor extremo sobre a produção e garantir maior segurança alimentar para as próximas décadas.