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O solo como produto de relações

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Afonso Peche Filho*

Pensar o solo como produto de relações é deslocar o eixo interpretativo tradicional que o define como corpo físico-químico passivo para compreendê-lo como resultado histórico e dinâmico de interações. Essa mudança não é meramente conceitual; ela redefine prioridades de manejo, critérios de diagnóstico e expectativas de produtividade. Para profissionais das ciências agronômicas e ambientais, significa operar menos sobre compartimentos isolados e mais sobre fluxos, conexões e retroalimentações que sustentam a funcionalidade do agroecossistema.

Durante grande parte do desenvolvimento da agronomia moderna, o solo foi tratado como meio de cultivo a ser corrigido. A ênfase recaiu sobre balanços de nutrientes, neutralização de acidez, resposta a insumos e otimização de rendimentos. Embora tais ferramentas tenham permitido avanços importantes, elas frequentemente fragmentaram a percepção do sistema. Ao fragmentar, perderam de vista que a fertilidade emerge de uma trama cooperativa entre estrutura física, atividade biológica, matéria orgânica, regime hídrico e manejo humano.

Sob a lente relacional, nenhum atributo é autônomo. A porosidade depende da agregação; a agregação depende de exsudatos radiculares, polissacarídeos microbianos, hifas fúngicas e ciclos de umedecimento e secagem; a atividade biológica depende de oferta energética; a energia depende da fotossíntese e da presença de plantas; as plantas dependem de condições físicas e químicas favoráveis. Forma-se um circuito. A produtividade, portanto, não nasce de um ponto específico, mas da qualidade das conexões que mantêm o circuito ativo.

Essa compreensão aproxima a prática agronômica de uma ecologia aplicada. Manejar passa a ser estimular interações benéficas e reduzir interrupções. Distúrbios intensos, simplificação de coberturas, exposições prolongadas do solo, tráfego desordenado de máquinas, uso de insumos que deprimem a biota, tudo isso não atua apenas sobre variáveis isoladas, mas sobre a própria malha de relações que sustenta a resiliência.

Ao reconhecer o solo como construção relacional, o tempo ganha nova relevância. Relações exigem continuidade. A biologia precisa de permanência para organizar micro-habitats, estabilizar agregados, aprofundar raízes, modular ciclos de nutrientes. Intervenções que desestruturam essa continuidade podem produzir respostas rápidas, porém frequentemente comprometem a capacidade futura do sistema. A produtividade imediata pode crescer enquanto a infraestrutura ecológica se enfraquece silenciosamente.

O desafio técnico, então, deixa de ser apenas “quanto produzir” e passa a incluir “como manter as condições que permitem produzir ao longo do tempo”. Essa nuance altera profundamente o papel do profissional. O agrônomo ou gestor ambiental torna-se mediador de vínculos: entre plantas e microrganismos, entre água e solo, entre cobertura vegetal e clima, entre operação mecânica e estabilidade estrutural.

Nesse contexto, cooperação biológica não é metáfora; é fundamento operacional. Consórcios vegetais, diversidade de raízes, manutenção de palhada, integração lavoura-pecuária-floresta, uso de compostos orgânicos e remineralizadores, redução de revolvimento, proteção de áreas lindeiras, todas essas práticas ampliam oportunidades de interação. Quanto maior a diversidade de agentes atuando, maior a chance de que funções essenciais sejam cumpridas mesmo diante de perturbações.

A conectividade também redefine a leitura de indicadores de campo. Raízes profundas sinalizam canais abertos por organismos anteriores; infiltração eficiente reflete arquitetura preservada; agregados estáveis revelam cooperação entre carbono e biologia; presença de fauna indica oferta energética contínua. Cada evidência é expressão visível de relações invisíveis.

Essa abordagem encontra eco na tradição da agronomia ecológica defendida por Ana Maria Primavesi, que insistia na necessidade de compreender o solo como organismo integrado. Sua contribuição permanece atual porque desloca a pergunta: em vez de “qual produto aplicar?”, pergunta-se “quais vínculos precisam ser restabelecidos?”.

Quando o manejo é orientado por vínculos, decisões tornam-se mais prudentes e estratégicas. Busca-se favorecer coberturas permanentes, reduzir intervalos sem raízes vivas, minimizar compactação, diversificar fontes de matéria orgânica, proteger organismos engenheiros do ecossistema. O objetivo não é apenas suprir demandas da cultura, mas fortalecer a rede que a sustenta.

Trata-se de uma mudança epistemológica relevante. O solo deixa de ser visto como plataforma inerte e passa a ser entendido como processo em permanente construção. Sua qualidade não é dada; é produzida continuamente pelas relações que conseguimos manter ou degradar.

Para as ciências agrárias e ambientais, essa visão oferece um critério poderoso: sistemas produtivos duráveis são aqueles que ampliam cooperação interna e reduzem dependência de intervenções corretivas externas. Onde há vínculos ativos, a autorregulação aumenta; onde eles se rompem, a necessidade de controle cresce.

Assim, afirmar que o solo é produto de relações é reconhecer que o manejo eficiente é, antes de tudo, manejo de conectividades. É favorecer encontros entre organismos, energia e matéria; é permitir que a biologia execute funções estruturantes; é compreender que produtividade robusta nasce da harmonia entre múltiplos atores.

A pergunta decisiva para o profissional deixa de ser apenas técnica e torna-se também ética: estamos fortalecendo ou enfraquecendo as relações que garantem o futuro do sistema? A resposta a essa questão orientará a agricultura que seremos capazes de sustentar.

* Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

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