Ronaldo Morini Ferreira
Engenheiro Agrônomo e produtor rural – FFALM e Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)
ronaldomoriniferreira@gmail.com
Tatiana Cantuaria Avilés
Engenheira Agrônoma e Pós Doutora (Departamento de Produção Vegetal – ESALQ/USP)
tatiana.cantuarias@gmail.com
Bianca Ferreira
Engenheira Agrônoma – Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)
biancaferreiraagro@gmail.com
O cultivo do abacate (Persea americana), especialmente o Hass, tem se destacado pela alta demanda e bom valor de mercado. No entanto, alcançar frutos de qualidade envolve mais do que produtividade: fatores ambientais, manejo adequado e o ponto correto da fruta para a colheita são decisivos.
Como o abacate continua o processo de amadurecimento depois de colhido, tirar o fruto fora do ponto pode comprometer sabor, firmeza e vida de prateleira. Nesse momento, ocorre o aumento da respiração e a liberação de etileno, que estimula as transformações de textura, aroma e sabor, acelerando a sua maturação.
Considerando essas questões, é imprescindível que se tenha atenção e responsabilidade para se realizar a colheita no momento certo e garantir que chegue ao mercado uma fruta saborosa e de boa qualidade, garantindo lucro ao produtor e a toda a cadeia produtiva.
Avaliação do teor de matéria seca no avocado Hass
Devido ao elevado teor de óleo, essa variedade de abacate exige que se faça a colheita com um adequado nível de maturação, o que resulta em maior concentração de óleo e menor concentração de água em sua composição. É considerado como ponto ideal o valor de 23% de matéria seca no abacate Hass, o que indica que o fruto já atingiu condições adequadas e está pronto para ser colhido.
Esse número é importante porque reflete a quantidade de parte sólida presente na polpa, como açúcares estruturais, proteínas e fibras, e normalmente acompanha o aumento do teor de óleo, fator que influencia diretamente o sabor e a textura.
Para isso, a tecnologia disponível hoje em dia já permite que se faça essa avaliação a campo, utilizando aparelhos portáteis que fazem a “leitura” da fruta sem que ela precise ser retirada da planta. E há também maneiras mais acessíveis de realizar essa análise com bastante precisão e que são mais utilizadas pelos produtores.

Métodos para determinação da data de início da colheita
Existem 2 metodologias para definir a data de início da colheita dos abacates, que são aplicadas em frutos amostrados a partir de 30 dias antes da data prevista para colheita da variedade, são elas:
1. Determinação da % de azeite da polpa: através da extração química em solvente orgânico. Este método é o mais preciso, porém menos utilizado por ser de alto custo.
2. Determinação da matéria seca da polpa: através de secagem da polpa em forno micro-ondas/convencional ou desidratadora.
Teor mínimo de matéria seca para o Hass:
• 23% de matéria seca para pomares em solos que conferem alto vigor às plantas (solos argilosos).
• 21% de matéria seca para pomares em solos que conferem baixo vigor às plantas (solos arenosos).
Teor mínimo de azeite para o Hass:
• 9%.
Desde que existe uma relação direta entre o teor de azeite e a matéria seca da polpa, a partir dos anos 90 utiliza-se a % de matéria seca da polpa (%MS) como índice de colheita, por ser de mais fácil de determinar por secagem da polpa em forno micro-ondas.
Amostragem de frutos para avaliação de %MS
Equipamentos requeridos:
Forno convencional a gás ou forno elétrico; uma balança com precisão de até 1 grama (ou menos); três pratos ou vasilhas pequenas; processador de alimentos ou ralador; faca de lâmina lisa; pano de prato; papel e caneta.
A determinação em micro-ondas é mais rápida, porém menos precisa, devido ao maior risco de queimadura das amostras.
Amostragem e preparo dos frutos
Selecionar 20 frutos por talhão (10 grandes e 10 pequenos) – da mesma florada – coletados de forma aleatória e representativa do talhão, das partes sombreadas da planta e de distintas árvores no talhão. Os frutos devem estar duros para poder determinar a matéria seca. Identificar a amostra de frutos com o número do talhão.
Colocar os frutos dentro de uma sacola plástica dentro da geladeira (a 8-10ºC) por 1-2 horas. Retirar as amostras da frutos da geladeira. Com a faca cortar cada fruto em quartos no sentido longitudinal (desde o pedúnculo até a base). De cada fruto cortado em 4, separar 2 quartos diagonalmente opostos, para obter um total de 20 quartos da amostra de 10 frutos. Descascar e remover a semente de cada quarto. Moer no processador de alimentos a polpa dos 20 quartos em pedaços com grossura menor que 1 mm. Misturar a polpa moída dos 20 quartos.
Atenção: Uma vez moída, a amostra de polpa deve ser imediatamente pesada para evitar a perda de água e interferir na acurácia da determinação da MS.
Protocolo para determinação de matéria seca em forno convencional (a gás ou elétrico)
1. Pré-aquecer o forno entre 100 e 110ºC.
2. Espalhar 30 gramas de polpa moída em cada um dos 3 pratos (ou vasilhas) previamente marcados com números. Pesar cada prato com a polpa em balança com precisão de até 1 grama o valor. Esses valores serão o Peso Inicial da Amostra (Pi).
3. Colocar os pratos + polpa moída na parte central dentro do forno e deixar secar durante 5 horas. Durante a secagem, observar constantemente a cor da amostra de polpa para evitar que queime. Evite abrir o forno durante a secagem.
4. Depois das 5 horas de secagem continuada e SEM DESLIGAR O FORNO, retirar os pratos do forno e deixar para esfriar no ambiente durante 5 minutos.
5. Transcorridos 5 minutos depois de retirados do forno, pese novamente cada prato com a amostra de polpa moída. Registre o peso de cada prato.
6. Colocar novamente os pratos na parte central dentro do forno e deixar para secar por mais 30 min.
7. Transcorridos os 30 min, e sem desligar o forno, retirar os pratos do forno, esperar 5 min que esfriem e pesar. Se o peso não variar, esse será o Peso final (Pf) da amostra. Caso contrário, submeta as amostras a novo ciclo de secagem por 15 min, até o peso estabilizar.
Atenção: uma forma de saber se a amostra está bem seca, é pegando uma porção de polpa ralada seca de aproximadamente 5 cm de comprimento, colocá-la de comprido entre o dedo polegar e o indicador, e tratar de dobrá-la. Se estiver quebradiça e estralar quando dobrada, a amostra estará bem seca. Caso contrário, submeter a amostra a um novo ciclo de secagem no forno, até estabilizar o peso final.
Protocolo para determinação de matéria seca em forno micro-ondas
1. Espalhar no mínimo 100 gramas de polpa moída na forma refratária e pesar o conjunto. Registre o valor, esse será o Peso Inicial da Amostra (Pi).
2. Ajuste a potência do micro ondas para nível 4 (40%). Dispor um copo com 30 mL de água dentro do micro ondas, em um canto e não dentro da bandeja giratória, para que a água do copo não espirre e molhe a amostra durante a secagem.
3. Com o forno em potência reduzida, submeter à secagem durante 10 min. Durante a secagem, observar constantemente a cor da amostra de polpa para evitar que queime. Evite abrir o forno durante a secagem.
4. Transcorridos os 10 min da secagem em potência reduzida, retirar a amostrar do forno usando pano de pratos e deixar esfriar no ambiente por 5 min. Pesar a amostra e registrar o peso.
5. Submeter a um novo ciclo de secagem em potência reduzida por mais 1 minuto. Retirar a amostrar do forno, deixar esfriar por 5 min e pesar, até o peso estabilizar. Esse será o Peso final (Pf) da amostra.

Ponto certo, fruta de qualidade e valorizada no mercado
Acertar o momento da colheita é essencial para garantir frutos com boa textura, sabor e maior vida de prateleira. A avaliação da matéria seca se mostra uma ferramenta confiável para orientar o produtor, trazendo mais precisão do que apenas a análise visual e reduzindo a chance de colher frutos imaturos ou fora do padrão.
Quando esse método é incorporado à rotina da propriedade, o resultado é mais qualidade na fruta, menos desperdício e melhor retorno comercial. Além disso, a padronização do ponto de colheita facilita o armazenamento, o transporte e a aceitação no mercado, fortalecendo a imagem do produtor e agregando valor ao produto final.

