O Brasil consolidou-se como líder global no uso de bioinsumos graças a um trabalho científico consistente, construído ao longo de quase sete décadas.
Essa trajetória foi um dos pilares que levaram a pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, a receber o World Food Prize, considerado o “Nobel” da agricultura.
Doutora em Ciência do Solo e integrante da Academia Brasileira de Ciências, ela reforça que os avanços atuais são fruto de pesquisa sólida, contínua e independente.
Segundo a pesquisadora, termos como bioinsumos inteligentes ou bioinsumos de segunda geração surgem com frequência, mas não substituem aquilo que realmente funciona: microrganismos eficientes, seguros e integrados a um pacote tecnológico validado.
“O Brasil não chegou a essa liderança do dia para a noite. São décadas estudando bactérias, fungos, modos de aplicação e formulações adequadas às nossas condições tropicais”, destaca.
Bioinsumo não é só microrganismo: é pacote tecnológico
Para Mariangela, o conceito que realmente faz sentido é o de bioinsumo de qualidade, que envolve muito mais do que a escolha de uma bactéria ou fungo.
Inclui desenvolvimento tecnológico, definição correta de dose, momento e forma de aplicação, além de validações em larga escala conduzidas por instituições de pesquisa, e não apenas pelo setor comercial.
“Não adianta ter um microrganismo promissor se não houver tecnologia para usá-lo corretamente. O sucesso depende de entender quando aplicar, como aplicar e qual processo microbiológico está envolvido”, explica.
Esse conjunto (produto, formulação, aplicação e desempenho agronômico) é o que garante resultados consistentes no campo.

Cada microrganismo é único, como as pessoas
Um dos principais equívocos, segundo a pesquisadora, é tratar microrganismos como se fossem todos iguais dentro de uma mesma espécie.
O exemplo clássico está nos rizóbios da soja. Na coleção da Embrapa Soja, existem mais de 800 estirpes capazes de nodular a cultura, mas apenas quatro apresentam alta eficiência agronômica e segurança para uso comercial.
“O paralelo com os humanos é perfeito: somos todos da mesma espécie, mas com habilidades completamente diferentes. O mesmo vale para microrganismos”, afirma.
Por isso, a bioprospecção, a seleção rigorosa e, em alguns casos, o melhoramento dessas estirpes são etapas indispensáveis.
Segurança ambiental e humana é inegociável
Eficiência, sozinha, não basta. Todo microrganismo selecionado precisa ser seguro para o meio ambiente, para o solo e para as pessoas.
Um bioinsumo introduzido no sistema agrícola não pode ser retirado depois, o que torna a responsabilidade científica ainda maior.
“Existem microrganismos excelentes para promover crescimento vegetal, mas que podem ser patogênicos ao ser humano. Esses jamais podem ser usados comercialmente”, alerta Mariangela.
O equilíbrio observado no solo natural muda completamente quando uma bactéria é multiplicada em grande escala industrial e aplicada em altas concentrações no campo.

Fixação biológica do nitrogênio: o padrão ouro
Entre os processos microbiológicos, a fixação biológica do nitrogênio (FBN) continua sendo o grande destaque. Considerado o segundo processo biológico mais importante do planeta, atrás apenas da fotossíntese, ele permite que bactérias convertam o nitrogênio da atmosfera, que compõe cerca de 80% do ar, em formas assimiláveis pelas plantas. Na soja, esse processo substitui 100% da necessidade de fertilizantes nitrogenados.
Os números são expressivos: somente na última safra, a economia com ureia ultrapassou 27 bilhões de dólares. Em gramíneas, como cana-de-açúcar, milho e trigo, a contribuição varia de 25% a 40% do nitrogênio demandado, representando ganhos econômicos e ambientais relevantes.
Além do nitrogênio: fósforo, potássio e tolerância ao estresse
Nos últimos anos, a pesquisa avançou para além do nitrogênio. Microrganismos capazes de facilitar a absorção de fósforo, solubilizar fontes pouco disponíveis de potássio e aumentar a tolerância das plantas à seca ganham espaço.
Fungos micorrízicos, por exemplo, ampliam a área de absorção radicular, permitindo acesso a nutrientes pouco móveis no solo. Já algumas bactérias produzem metabólitos que solubilizam minerais menos disponíveis, reduzindo a dependência de fertilizantes importados, especialmente relevante no caso do potássio, que o Brasil importa cerca de 95%.

Inteligência está no manejo, não no produto
Mariangela é categórica ao criticar o uso do termo bioinsumo inteligente. Para ela, a inteligência está no agricultor e no técnico que sabem escolher o microrganismo certo, para a cultura certa, no momento adequado. “Se o solo é arenoso e de primeiro ano de soja, o foco deve ser fixação de nitrogênio. Se o problema é fósforo pouco disponível, escolhem-se microrganismos relacionados a esse nutriente. Se há risco de seca, priorizam-se aqueles que aumentam a tolerância ao estresse hídrico”, explica.
Misturar vários produtos sem critério pode diluir os efeitos desejados. A recomendação é foco e estratégia, sempre baseada em ciência.
Aplicação correta: onde muitos erros acontecem
Mesmo o melhor bioinsumo falha se for mal utilizado. Armazenamento inadequado, exposição ao calor, doses incorretas e aplicação em solo excessivamente seco comprometem a sobrevivência dos microrganismos. Estudos mostram que, ao plantar “no pó”, grande parte das bactérias pode morrer em poucas horas. Além disso, microrganismos como rizóbios e Azospirilum precisam de água para se locomover até a raiz. “Não adianta ter o melhor produto do mundo se a tecnologia de aplicação não for respeitada”, reforça a pesquisadora.

Estabilidade e formulação: desafios atuais
Embora o Brasil tenha produtos estáveis e com bom tempo de prateleira, como os inoculantes para soja, muitas novas espécies ainda enfrentam desafios de formulação. Garantir estabilidade e longevidade é fundamental tanto para a indústria quanto para o produtor rural. Esse é um dos principais gargalos atuais da pesquisa, especialmente diante do aumento de novos microrganismos disponíveis no mercado.
O futuro dos bioinsumos no Brasil

Apesar da liderança mundial, os bioinsumos ainda representam menos de 10% do volume de insumos utilizados na agricultura brasileira. O potencial, segundo Mariangela Hungria, é alcançar entre 40% e 50%, reduzindo custos, emissões e dependência de fertilizantes minerais, com eficiência e segurança.
“O conhecimento científico que nos trouxe até aqui não pode ser abandonado. Pelo contrário, deve ser a base para incorporar novas tecnologias, como a edição gênica, sempre com responsabilidade”, conclui a pesquisadora.

