Autoria:
Rossana Cortelini da Rosa
ro.cortelini@hotmail.com
Dione Dambros Raddatz
dionedambros@hotmail.com
Doutores em Ciências Florestais – Universidade de Brasília (UnB)
Annie Karoline de Lima Cavalcante
Doutoranda PPG Ciências Florestais – UnB
annie.karolinelima@gmail.com
A transição para cadeias produtivas livres de desmatamento saiu do campo das iniciativas voluntárias e entrou oficialmente na esfera das exigências regulatórias e comerciais.
A União Europeia estabeleceu a Regulação de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), impondo geolocalização exata das áreas de produção e declarações de diligência para sete commodities: gado, soja, óleo de palma, café, cacau, borracha e madeira, além de derivados como couro, papel, chocolate e móveis.
A regra entrou em vigor em 2023 e traz um calendário de conformidade escalonado, ainda sujeito a ajustes e possíveis prorrogações, mas já determinante para quem depende do mercado europeu.
A infraestrutura brasileira de monitoramento, ancorada em ferramentas como PRODES, DETER, TerraBrasilis e CAR, oferece condições técnicas sólidas para comprovar origem e uso da terra.
A queda recente dos índices oficiais de desmatamento abre uma oportunidade estratégica: transformar o compliance em vantagem competitiva e reposicionar o Brasil como fornecedor prioritário para cadeias efetivamente limpas.
Mesmo assim, muitas empresas ainda estão no meio do processo de adaptação, enquanto grandes corporações do agro, florestal e industrial avançam com investimentos em rastreabilidade e monitoramento remoto para atender às exigências europeias.
As empresas brasileiras já estão prontas, ou ainda arrumando a casa?

A resposta é híbrida. Há grupos empresariais que já estruturaram sistemas de mapeamento territorial, auditorias internas e protocolos de verificação robustos.
Porém, gargalos persistem, principalmente na rastreabilidade de fornecedores indiretos e na consolidação de bases georreferenciadas completas. Estudos recentes do Radar Verde e análises acadêmicas mostram uma vulnerabilidade central: nenhuma das centenas de empresas avaliadas conseguiu comprovar integralmente a origem dos animais vindos de fornecedores indiretos, o que gera risco regulatório imediato.
Iniciativas estaduais, como o Programa de Pecuária Sustentável do Pará e discussões federais sobre um plano nacional de identificação bovina demonstram que o país começa a se alinhar às exigências internacionais.
Mesmo assim, a implementação em larga escala ainda exige investimentos, governança coordenada e integração de dados entre elos da cadeia.
Na pecuária, o desafio vai do nascimento ao abate. A rastreabilidade individual, o cruzamento automático de GTAs com CAR e o uso de chips eletrônicos tornam-se essenciais. Quem resolver isso primeiro não só se enquadrará nas normas, mas conquistará vantagem comercial tangível.
A corrida global por compliance: risco ou oportunidade estratégica?
A pressão regulatória cresce rápido. A UE avança com a EUDR; Estados Unidos e países asiáticos discutem legislações semelhantes. O risco de quem não se adapta é direto: perda de acesso a mercados-chave, sanções, retenções de carga e desgaste reputacional.
Não à toa, cresce a busca por consultorias especializadas, soluções de rastreabilidade e parcerias tecnológicas que aceleram a adequação.
Mais que uma exigência técnica, trata-se de uma decisão estratégica: transformar o compliance em diferencial competitivo mensurável, especialmente em cadeias globais preocupadas com integridade ambiental e origem comprovada.
Rastreabilidade total: viável, necessária e cada vez mais inevitável
O Brasil já dispõe de sistemas oficiais auditáveis e de alto grau de precisão, hoje apoiados por sensores de alta resolução nos satélites Sentinel e Landsat. No contexto da EUDR, rastrear até o talhão produtivo deixou de ser recomendação e tornou-se exigência explícita.
Os maiores obstáculos não estão na tecnologia disponível, mas na integração de dados entre produtores, intermediários, indústrias e varejo. A pesquisa do Gibbs Lab deixa isso evidente: cerca de 81% do desmatamento associado a cadeias com compromissos de desmatamento zero ocorre nos elos não monitorados, a “ponta cega” que ainda compromete a rastreabilidade plena.
A consolidação de sistemas interoperáveis, alinhados aos novos marcos regulatórios, transforma a rastreabilidade total em condição técnica acessível e comercialmente indispensável.
Setor florestal: como transformar compliance em vantagem competitiva?
Para o setor florestal, a devida diligência ambiental abre três caminhos simultâneos: acesso qualificado a mercados, redução do custo de capital e fortalecimento da imagem ambiental do Brasil.
Com mercados europeus respondendo por parcela significativa das exportações florestais, empresas que comprovaram geolocalização precisa e regularidade ambiental passam a operar com mais segurança, previsibilidade logística e contratos de longo prazo.
O crédito rural também segue essa direção: parte relevante dos recursos exige demonstração de conformidade ambiental. Quem tem bases georreferenciadas completas, dados organizados e histórico limpo reduz risco operacional e acessa linhas melhores.
Somado a isso, a queda do desmatamento amplia a credibilidade internacional do país e abre espaço para produtos florestais certificados alcançarem segmentos premium, especialmente na União Europeia.

Certificações: custo inevitável ou passaporte comercial?
Certificações como FSC, PEFC, RTRS, RSPO e Rainforest Alliance continuam relevantes, mas não substituem as exigências da EUDR. Elas reduzem custos de conformidade, facilitam auditorias externas e funcionam como pré-validação, mas o regulador europeu exige provas adicionais: coordenadas verificáveis, rastros digitais completos e confirmação de que não houve conversão de vegetação após a data de corte.
Em outras palavras, o selo é condição complementar, e não mais o suficiente. Empresas que unem certificações robustas com rastreabilidade geoespacial têm maior chance de evitar bloqueios de cargas e exclusões comerciais.
Monitoramento remoto: essencial, preciso, mas ainda insuficiente sozinho
Sistemas como PRODES e DETER avançaram em resolução e frequência, capaz de detectar alterações sutis na vegetação e orientar ações de fiscalização. Mas a garantia de cadeias realmente livres de desmatamento depende de um ecossistema integrado que combina auditorias de campo, cruzamento de GTAs, verificação fundiária e monitoramento de movimentação animal.
As brechas principais são degradação florestal, fogo e a migração da pressão desmatadora para fornecedores indiretos. A solução técnica apontada por especialistas é a rastreabilidade compulsória nacional, com identificação individual de animais e integração ampla entre bases públicas e privadas.
E os pequenos produtores? Inclusão ou exclusão?
Pequenos produtores enfrentam risco real de exclusão se não houver políticas específicas de apoio. As exigências de geolocalização, auditoria e registro digital têm peso proporcionalmente maior para propriedades de menor escala.
Entretanto, arranjos coletivos, cooperativas, associações, certificação em grupo e plataformas digitais centralizadas, podem diluir custos e democratizar o acesso ao mercado europeu.

A UE discute modelos simplificados para pequenos produtores, reconhecendo a necessidade de flexibilização. Mesmo assim, sem financiamento verde e assistência técnica estruturada, há risco de concentração de mercado nas mãos de poucos.
O consumidor global vai pagar pela rastreabilidade florestal?
Em média, sim. Pesquisas internacionais mostram uma disposição de pagar até 10% a mais por produtos sustentáveis, sobretudo em segmentos premium. Em mercados maduros, a rastreabilidade florestal já é percebida como atributo de valor, especialmente quando bem comunicada.
Entretanto, em mercados emergentes, preço ainda domina a decisão. A sustentabilidade precisa vir acompanhada de benefícios tangíveis e narrativa sólida para justificar o valor agregado.
Quem sentirá o impacto primeiro?
Os setores mais expostos são os que reúnem cadeias longas, múltiplos intermediários, riscos fundiários e histórico de conversão de vegetação. Entre eles, destacam-se carne bovina e couro, soja, madeira, cacau, café e borracha.
Tabela 1 — Sensibilidade das cadeias produtivas às exigências do EUDR
| Setor | Sensibilidade | Principais desafios |
| Carne bovina e couro | Muito alta | Fornecedores indiretos, GTA, regularização fundiária |
| Soja e derivados | Alta | Misturas, blends e rastreio por lote |
| Madeira, papel, móveis | Geolocalização da área de corte; transição do EUTR para o EUDR | |
| Cacau e café | Média-alta | Pequenos produtores sem digitalização; risco de exclusão |
| Borrachas e pneus | Média | Cadeia fragmentada; concentração regional |
Brasil: liderança global ou apenas reação tardia?
O país vive um ponto de inflexão. As quedas recentes do desmatamento em 2024–2025 e o fortalecimento das políticas de controle criam condições concretas para que o Brasil lidere cadeias globais de origem comprovada.
Estados pioneiros, como o Pará com seu programa de rastreabilidade individual, já mostram que é possível avançar em direção a um sistema robusto, integrado e aderente às exigências internacionais.
Entretanto, essa liderança depende de um passo essencial: transformar ferramentas hoje dispersas, CAR, GTAs, monitoramento remoto, identificação individual e auditorias territoriais, em um padrão nacional de rastreabilidade.
Sem essa integração, o país corre o risco de seguir apenas reagindo às pressões externas, arcando com custos maiores, perdendo previsibilidade e cedendo espaço a concorrentes que já avançam em conformidade.

A escolha é estratégica e urgente: coordenar, integrar e liderar — ou adaptar-se tardiamente às regras dos outros.
Pressão internacional: motor de restauração ou máquina de papel?
A pressão regulatória global pode ser tanto aceleradora da restauração florestal quanto fonte de novas barreiras burocráticas. Quando há integração nacional, empresas capazes de comprovar cadeias limpas e investir em áreas restauradas ganham acesso privilegiado a mercados premium, atraem financiamento verde e ampliam sua reputação. A exigência de rastreabilidade, nesse caso, passa de custo a ativo econômico.
Mas o reverso também é verdadeiro. Exigências fragmentadas, múltiplas plataformas, diferentes padrões de auditoria, sobreposição de cadastros, podem transformar a conformidade em uma engrenagem lenta, cara e excludente, especialmente para pequenos e médios produtores.
Se o Brasil não unificar procedimentos e simplificar processos, a pressão internacional tende a gerar mais burocracia do que restauração.
O veredito: o novo passaporte é dado + desempenho
O comércio agro global adotou um novo idioma: cadeias livres de desmatamento. O Brasil já tem a gramática: tecnologia, dados públicos de alta precisão, sistemas de monitoramento consolidados e políticas que começam a convergir. Falta transformar compliance em estratégia de mercado.
A lógica é simples e poderosa: quem mapeia, monitora e integra pequenos hoje, vende melhor, com menos risco e para mercados mais valiosos amanhã.
